Os Cemitérios são espaços simbólicos e culturais que fazem parte das diversas sociedades em que estão inseridos. Sepultar e cuidar dos mortos, não é um comportamento recente nas sociedades humanas. Ao longo da História e das diversas culturas são exemplos variados naquilo que se refere ao culto dos mortos, aos ritos fúnebres e às diversas concepções que são construídas em torno desse tema (ALMEIDA, 2004, p. 1).
A instauração dos grandes cemitérios tem seu grande desenvolvimento no século XIX. Desde os grandes enterramentos medievais, em que personalidades são sepultadas nas igrejas e os outros mortais em condições precárias, nas adjacências dos templos. A revolução que se produz nesse campo, em meados dos Oitocentos carrega em si uma variedade de causas. As transformações sociais advindas da Revolução Industrial, provocaram o crescimento urbano desordenado, as guerras, as doenças e as precárias condições de vida se associaram a um pensamento científico que visava dar aos enterramentos condições mais higiênicas, ordenando o caos das cidades. Será dentro desse contexto que vários cemitérios são inaugurados, contando mais ou menos com a aprovação das autoridades eclesiásticas e da sociedade.Pesquisar arquitetura funerária significa abarcar um tipo de fonte menos convencional, a fim de detectar a relação dialética entre as condições objetivas da vida dos homens e a maneira como eles a narram, vivem e expressam concretamente nos artefatos funerários, porque constituem um domínio excepcional para a observação e análise, a partir da cultura material, de fenômenos de dinâmica cultural, social e artística.
O cemitério reproduz, em seu arcabouço, a sociedade como um todo, em que os seus membros estão situados no mesmo espaço comum, mas ao mesmo tempo separados por categorias de distinção. A primeira finalidade de um cemitério é representar um resumo simbólico, uma espécie de imagem da sociedade, onde as categorias e as distinções são mantidas.
O historiador francês Jacques Le Goff (1994) afirma que, enquanto conhecimento do passado a história não teria sido possível se este não tivesse deixado traços, monumentos, suportes da memória coletiva. O monumento teria como principal característica, a de ser um elo com a perpetuação de sociedades históricas.
Sendo assim, recorre-se à palavra monumentum, que expressa uma das funções essenciais do espírito: a memória, memini, que, de acordo às suas origens filológicas, é tudo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação. Daí, porque, o monumento funerário é destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória da morte, é particularmente valorizada. Os monumentos e as comemorações são, sem dúvida, os meios mais práticos e seguros, para gravar no espírito do povo, as proezas de um herói, a grandeza de um nome e o significado de um acontecimento.
As novas formas de se fazer história insistem na necessidade de ampliar a noção de documento. Portanto, se monumentos são aqueles objetos materiais produzidos por uma dada cultura, eles são também documentos. A própria origem da palavra monumento[1] já representa o sentido de memória. O documento para Le Goff (1994, p.545), não é algo que fica por conta do passado, mas é produto da sociedade que o fabricou, segundo relações de força, em que se apresenta a questão do poder. Portanto, a memória coletiva não deve estar à disposição da servidão, mas deve servir à libertação. Motivo pelo qual, será preciso criar lugares da memória para que a memória esteja em algum lugar. Pensar a institucionalização dos lugares de memória como um entrecruzar de dois movimentos: de um lado, uma transformação em termos de reflexão por parte da História, de outro, o fim de uma tradição de memória.
O lugar de memória é um marco de transição entre dois eixos. Em suas dimensões concretas, tais lugares vão remeter a museus, arquivos, cemitérios, tratados, entre outros signos de rememoração. Assim, no momento em que uma tradição de memória enquanto processo experimentado e vivenciado coletivamente começa a se esvair, é preciso criar marcos para ancorar essa nova memória (NORA, 1988, p. 83).
[1] A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (menini). O verbo monere significa “fazer recordar” de onde “avisar”, “iluminar”, “instruir”. O monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, o monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos (...) Mas desde a Antiguidade romana o monumentum tende a especializar-se em dois sentidos: 1) uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura: arco do triunfo, coluna, troféu, pórtico, etc; 2) um monumento funerário destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é particularmente valorizada: a morte (LE GOFF, 1994, p. 535).
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