quinta-feira, 14 de julho de 2011

Conservação Preventiva

A meta principal da Conservação Preventiva é o estudo e o controle das principais fontes de degradação. Constitui-se, na realidade, em uma série de medidas preventivas contra a ação dessas fontes de degradação, com a finalidade de evitar o alastramento e a disseminação de seus efeitos danosos.  Em linhas gerais, os principais agentes de destruição de acervos podem ser divididos em três categorias: fatores internos de degradação; fatores externos ou ambientais de degradação; ação do homem sobre o acervo. Os fatores internos de degradação são males inerentes à sua própria estrutura, no caso do mármore em exposição à oscilações climáticas e agentes biodeteriorantes, como fungos, vegetações rasteiras, fezes animais, bem como o manuseio de forma errada.
São intervenções de menor complexidade e baixo custo que possibilitam prevenir danos maiores e, freqüentemente, irreversíveis, tais como:
·         Roubo, furto, vandalismo e esquecimento facilitados pela carência de políticas de gerenciamento e proteção efetivas e/ou pela ausência de sistemas de segurança;
  • Desmoronamento causado por desestabilização estrutural;
  • Deterioração causada pela interrupção da utilização cotidiana do edifício;
  • Incêndio provocado por instalações elétricas improvisadas.
  • Ar/Ventos, condições da atmosfera que podem causar danos como erosão e abrasões, transporte de atmosferas poluídas e de particulados, manchas, substrato para a biodeterioração.
  • Vibrações causadas por tráfego pesado de veículos, tráfego de pessoas (objetos delicados), explosões, que abalam as estruturas podendo vir a desprender partes constituintes.
  • Agentes biológicos: biodeterioração, bactérias, liquens, algas e fungos.
  • Xilófagos: Microorganismos e macro organismos.
  • Cupins (isópteros).
  • Plantas: vegetais superiores, raízes de plantas aéreas e trepadeiras (gameleira, aroeira, embaúba).
  • Pássaros: pombos (excrementos e invasão de espaços para ninhos)
  • Dinâmica de substituição ou sucessão de monumentos (por motivos políticos e econômicos).
  • Embelezamento das cidades e desejo de alteração da sua composição original. (motivados pelo progresso social e higiene pública).
Metodologia Recomendada para Instituições Detentoras de Acervos Culturais

·         Diagnóstico

Elaboração de exames e diagnóstico do estado de conservação de edificações e de suas coleções, envolvendo análise do clima, meio-ambiente, materiais e técnicas utilizadas a sua construção, além das rotinas de manutenção.

·         Manual de Rotinas

Conjunto de recomendações voltadas para o controle das condições climáticas e das rotinas de manutenção das edificações e coleções nelas armazenadas. Após uma intervenção preventiva, são revertidos os agentes deteriorantes e estabelecidos os parâmetros ideais para exibição e armazenagem das obras, além da manutenção da infraestrutura do prédio; o manual deve ser entregue à instituição para que seus técnicos o utilizem como referencial no seu gerenciamento. Locais mais salubres para desenvolvimento da museografia, controle da qualidade da atmosfera, entre outras recomendações, são indicados nos referidos manuais.


O saber Museológico nas escolas

Educação Patrimonial - Escola Estadual Filadélfia








Cemitério do Campo Santo - Salvador Bahia




A História registra exemplos clássicos de resistência a estas práticas e a título de exemplo, pode ser citada a “Cemiterada”, ocorrida em Salvador – Bahia, no ano de 1836, no qual uma multidão inconformada destruiu o Cemitério do Campo Santo dois dias após a sua inauguração. Este episódio é magistralmente narrado na obra de João José Reis (REIS, 1991, p.13).
Vencida a fase de resistência e adaptação a estes novos espaços de sepultamento, novos usos e construções imaginárias passam a lhes ser atribuídas. Resultantes do avanço e consolidação da burguesia e do capitalismo como sistema econômico predominante no mundo, especialmente ocidental, os cemitérios passam a ser utilizados como lugares de construção de memória, poder e status.
Será nestes espaços que artes e artistas irão imprimir uma nova maneira de cultuar os mortos e de produzir uma nova mentalidade naquilo que diz respeito aos fins últimos do homem. 
As pesquisas desenvolvidas no Cemitério do Campo Santo, em Salvador, compreendem o primeiro estudo sistemático sobre a História e Memória, preservada no mármore dos túmulos importados de Lisboa, no século XIX. O pioneiro nesta temática fúnebre na Bahia e no Brasil foi Clarival do Prado Valladares, que analisou a Arte e Sociedade nos cemitérios brasileiros, abordando também este Cemitério. Sua obra é referência para os estudiosos da área, assim como o modo criterioso e ponderado com que tratou a arte funerária, contribuindo para quebrar o “tabu” em relação ao tema.
No Cemitério do Campo Santo estão contidas as representações da História e Memória visual da cidade de Salvador, no quesito arte funerária, tanto quanto o processo de luto vivido até o século XIX, cuja forma de expressão foram os túmulos e mausoléus em mármore, importados de Lisboa e Itália, “expressões funerárias, intimamente ligadas à preservação da memória individual e coletiva, importantes formas de estudo” (KOURY, 1999, pp.75-76).
Atualmente o Cemitério do Campo Santo desenvolve um projeto denominado Circuito Cultural sobre a responsabilidade da Museóloga Jane Palma, vinculada a Santa Casa de Misericórdia. Esse circuito cobre alguns monumentos dos vários existentes no local. O circuito conta com informações acerca dos sepultados e a simbologia estética das obras que compõem os monumentos. O agendamento para as visitações é realizado através da Santa Casa de Misericórdia que disponibilizará um guia para orientar os visitantes, a princípio essa atividade é gratuita, não é possível encontrar um guia no Cemitério a disposição devido ao baixo fluxo de visitantes no local, o que nos leva a enfatizar a necessidade de mais divulgação e atenção para esse espaço cultural.

Arte Cemiterial

Os Cemitérios são espaços simbólicos e culturais que fazem parte das diversas sociedades em que estão inseridos. Sepultar e cuidar dos mortos, não é um comportamento recente nas sociedades humanas. Ao longo da História e das diversas culturas são exemplos variados naquilo que se refere ao culto dos mortos, aos ritos fúnebres e às diversas concepções que são construídas em torno desse tema (ALMEIDA, 2004, p. 1).
A instauração dos grandes cemitérios tem seu grande desenvolvimento no século XIX. Desde os grandes enterramentos medievais, em que personalidades são sepultadas nas igrejas e os outros mortais em condições precárias, nas adjacências dos templos. A revolução que se produz nesse campo, em meados dos Oitocentos carrega em si uma variedade de causas. As transformações sociais advindas da Revolução Industrial, provocaram o crescimento urbano desordenado, as guerras, as doenças e as precárias condições de vida se associaram a um pensamento científico que visava dar aos enterramentos condições mais higiênicas, ordenando o caos das cidades. Será dentro desse contexto que vários cemitérios são inaugurados, contando mais ou menos com a aprovação das autoridades eclesiásticas e da sociedade.

Pesquisar arquitetura funerária significa abarcar um tipo de fonte menos convencional, a fim de detectar a relação dialética entre as condições objetivas da vida dos homens e a maneira como eles a narram, vivem e expressam concretamente nos artefatos funerários, porque constituem um domínio excepcional para a observação e análise, a partir da cultura material, de fenômenos de dinâmica cultural, social e artística.
O cemitério reproduz, em seu arcabouço, a sociedade como um todo, em que os seus membros estão situados no mesmo espaço comum, mas ao mesmo tempo separados por categorias de distinção. A primeira finalidade de um cemitério é representar um resumo simbólico, uma espécie de imagem da sociedade, onde as categorias e as distinções são mantidas.

O historiador francês Jacques Le Goff (1994) afirma que, enquanto conhecimento do passado a história não teria sido possível se este não tivesse deixado traços, monumentos, suportes da memória coletiva. O monumento teria como principal característica, a de ser um elo com a perpetuação de sociedades históricas.

Sendo assim, recorre-se à palavra monumentum, que expressa uma das funções essenciais do espírito: a memória, memini, que, de acordo às suas origens filológicas, é tudo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação. Daí, porque, o monumento funerário é destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória da morte, é particularmente valorizada. Os monumentos e as comemorações são, sem dúvida, os meios mais práticos e seguros, para gravar no espírito do povo, as proezas de um herói, a grandeza de um nome e o significado de um acontecimento.
As novas formas de se fazer história insistem na necessidade de ampliar a noção de documento. Portanto, se monumentos são aqueles objetos materiais produzidos por uma dada cultura, eles são também documentos. A própria origem da palavra monumento[1] já representa o sentido de memória. O documento para Le Goff (1994, p.545), não é algo que fica por conta do passado, mas é produto da sociedade que o fabricou, segundo relações de força, em que se apresenta a questão do poder. Portanto, a memória coletiva não deve estar à disposição da servidão, mas deve servir à libertação. Motivo pelo qual, será preciso criar lugares da memória para que a memória esteja em algum lugar. Pensar a institucionalização dos lugares de memória como um entrecruzar de dois movimentos: de um lado, uma transformação em termos de reflexão por parte da História, de outro, o fim de uma tradição de memória.
O lugar de memória é um marco de transição entre dois eixos. Em suas dimensões concretas, tais lugares vão remeter a museus, arquivos, cemitérios, tratados, entre outros signos de rememoração. Assim, no momento em que uma tradição de memória enquanto processo experimentado e vivenciado coletivamente começa a se esvair, é preciso criar marcos para ancorar essa nova memória (NORA, 1988, p. 83).




[1] A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (menini). O verbo monere significa “fazer recordar” de onde “avisar”, “iluminar”, “instruir”. O monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, o monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos (...) Mas desde a Antiguidade romana o monumentum tende a especializar-se em dois sentidos: 1) uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura: arco do triunfo, coluna, troféu, pórtico, etc; 2) um monumento funerário destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é particularmente valorizada: a morte (LE GOFF, 1994, p. 535).